A cura do que não é doença

Lendo “Suicídio e Alma” , de James Hillman, me deparei com a seguinte frase: A luta contra a escuridão é talvez a primeira tarefa humana (…)” (p. 134)

Parei nessa singela frase (que nem era o foco do parágrafo) e me perguntei: por quê?

Por que tanto medo do escuro? Da morte? Do inconsciente? Por que tanto medo do imprevisível, dos ciclos, das crises? Por que tememos e repudiamos tanto aquilo que não exercermos controle, que escorrega, que transmuta, que transborda? Qualquer associação aqui com o feminino não é mera coincidência, mas isso é outro papo!

Se em um mundo onde se exalta sempre a “luz, a ordem, a razão, a moderação, a perfeição harmoniosa e desapaixonada” (p.136), tudo que é exagero, drama, desconforto, envolvimento, intensidade, amor e abundância, dança e escuridão, chuva e caos serão vistos como um mal, uma possível doença, algo a ser exterminado, quiçá “curado”.

Mas….. PARA TUDO!

Todas as características listadas acima são partes constituintes da vida. Aliás, são o que permitem e possibilitam a vida! São polaridades cuja tensão nos permitem existir, crescer, evoluir. Exterminar uma das polaridades é um caminho certo para a doença.

E aqui veio um flash mental: se tenho um medo distorcido de algo, a busca para curar esse algo será tão distorcido quanto!

Se tenho medo/repulsa por emoções, principalmente as desconfortáveis (medo, tristeza, angústia, raiva, ciúme, etc), a busca da “cura” delas será uma espécie de anestesia, distração ou formas quase obsessivas de controle e frieza emocional. Toda uma indústria farmacêutica e alimentícia está a serviço dessa “cura” ou “anestesia”. Os vícios geralmente encontram morada na ideia de “curar” essas emoções demasiadamente humanas.

Se tenho medo/ repulsa por erros, fracassos, equívocos (também tão naturais quanto as estações do ano), minha “cura” será uma obsessão perfeccionista, à custa da minha saúde mental e produtividade.

Será que, na maioria das vezes, não é necessário eu me curar de mim? No caso, esse “mim” refere-se a todo um aspecto egóico distorcido, arbitrário, que julga, que teme, que idealiza, que dificulta, que não enfrenta.

E como fazer isso?

Uma forma é abraçar o conceito zen de aceitação. Que nada tem a ver com conformismo. Aceitação é descrever a realidade, sem julgamento. E é nesse “sem julgamento” que mora o segredo de uma postura mais contemplativa da vida.

Hmmm.. e eu já tenho assunto para um próximo post. 😉

Por enquanto eu gostaria de saber de você: tem alguma emoção que você teme? Não suporta? Não aceita? Não tolera? Como você lida com as suas emoções?

Nina Taboada

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