Depressão: conceitos e pré-conceitos

O que não é depressão?

Depressão não é falta de roupa para lavar, de mulher para sair ou de homem para casar.

Não é falta do que fazer, “pitti” de gente meio blasé, frescura de quem não sabe valorizar um bem querer.

Depressão não é aquela melancolia que lhe acomete em um por do sol mágico, porém solitário. Ou aquela tristeza que perdura alguns dias/meses, enquanto você não consegue superar um amor indefinido, um emprego perdido ou uma morte sem sentido.

Depressão não é sinônimo de tristeza. De estresse. De solidão.

Então, o que é depressão?

Depressão é uma doença, um transtorno mental-emocional que afeta seu estado fisiológico E psicológico. Seu cérebro está diferente. Sua forma de processar as informações está diferente. E é muito, muito difícil sair dessa situação sozinho, sem ajuda profissional.

No âmbito psicológico (e de maneira simplificada), a perspectiva cognitivista entende a depressão através da Tríade Cognitiva de Beck: pensamentos negativos a respeito de mim mesmo, dos outros (do mundo) e do futuro. Já para os behavioristas, a depressão está relacionada com a falta de reforçadores positivos na vida de uma pessoa, uma vez que o indivíduo fica insensível às contingências (“situações”) positivas, ou seja, a maneira como a pessoa vive impede ela de entrar em contato com aspectos prazerosos do mundo (valeu Sílvia!). Um amigo junguiano diz que a depressão está relacionada a desconexão do self, ou seja, daquilo que dá sentido a existência, ser o que se é.

Mais do que tristeza, o que observamos na depressão é uma profunda indiferença na vida e pela vida. Um “tanto faz” crônico, uma vida cinza que tira o sabor e os prazeres cotidianos. Por isso às vezes pessoas diagnosticadas com depressão estão sempre na balada, em mil festas e bebedeiras, numa tentativa frenética de sentir alguma coisa, de sentir-se pertencendo a algo.. Mas ao chegar em casa (ou ao acordar de ressaca) o vazio surge como um rolo compressor. Nem sempre alguém com depressão é aquele que não sai da cama nem para tomar banho (embora exista esse perfil também).

Enfim, cognitivamente falando, a pessoa com depressão tem um auto-conceito negativo (eu sou incapaz, chato, burro, feio, não tenho jeito, não tenho valor, sou um fracasso, etc..), processa negativamente as informações a respeito dos outros (ninguém gosta de mim, as pessoas não me entendem, as pessoas são egoístas, mesquinhas, homem/mulher não presta, etc..) e uma visão negativa do futuro (as coisas não vão melhorar, não há o que fazer para mudar meu estado, meu futuro me parece negro, não adianta querer mudar).

Somado a essa forma de ver o mundo, há um déficit em resolução de problemas (diante de um obstáculo simplesmente não se sabe o que fazer e, se sabe, simplesmente não faz) e uma resistência a encarar seus pensamentos como hipóteses que podem ser modificadas. Ou seja, um pensamento não é uma descrição da verdade. É só um pensamento.

No âmbito fisiológico há alterações no apetite, no sono, na energia para o trabalho, e no apetite sexual.

Neurofisiologicamente falando há uma queda considerável principalmente na serotonina (mas não só), principal alvo dos antidepressivos mais comuns. Além disso, o humor deprimido acaba sendo um viés forte na construção de novas memórias (a atenção é mais focada no negativo, no déficit) e na recuperação de memórias antigas (lembra-se de todas as perdas, o que não foi vivido, críticas, déficits).

É importante focar DE NOVO REPITO ATENÇÃO que o principal sintoma da depressão não é só a tristeza, mas sim, a indiferença.

O mundo fica cinza, desbotado. O que era divertido, hoje não dá mais prazer. Perde-se, aos poucos, o interesse pelas outras pessoas. Sentimento de culpa e vazio são comuns. Tais sintomas são frequentes, intensos, e a pessoa começa a ter comportamentos disfuncionais (problemas no trabalho, relacionamentos, no cotidiano).

Tarefas comuns como lavar uma louça, tomar banho ou ir ao banco viram verdadeiros desafios. É um sacrifício sair da cama.

A boa notícia é que há tratamentos eficazes para esse mal. Para casos leves, psicoterapia aliada com movimento físico e um equilíbrio na alimentação operam milagres!  Em casos moderados a graves, o ideal é unir forças: psiquiatras e psicólogos devem trabalhar em conjunto diante de um mesmo objetivo: recuperar a identidade e a integridade do paciente. O medicamento possibilita o insight, não o substitui. Devolve ao indivíduo a pensar e sentir de forma menos contaminada. Mas… como pensar e sentir quando nem sei mais quem sou? Aí a terapia te abraça e no jogo de espelhos, faz com que você se (re)veja.

Porque, acredite, a vida, em sua dialética, dor e crises, pode ser maravilhosa.

Nina Taboada

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2 Comentários

  1. Ivonete Scheidt

    Muito bom Nina! Roubartilhei…<3

  2. Nina Taboada

    Oi Ivonete querida!!! Que bom que vc gostou! Sim, compartilhe com que você acha que pode se beneficiar!!!! Eu que agradeço!

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