Escute quando uma mulher se faz ouvida

Hoje, 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Dia que marca uma série de atos de grupos de mulheres reivindicando direitos, salários melhores, dignidade, enfim, tendo voz. Dia em que mulheres com voz foram queimadas, não nas fogueiras da inquisição católica, mas nas inquisições sociais, políticas e econômicas de uma fábrica. Não deixa de ser um padrão bizarro: mulher que tem voz ativa acaba caindo em alguma fogueira.

Hoje, 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, me deparo, #confesso, com uma série de vergonhas e culpas que só carrego pelo fato de ser mulher.

Eu me condeno por ter 37 anos. E ter vários fios brancos e algumas manchas no rosto.

Por não estar casada.

Por ter aumentado 8kg na minha balança nos últimos 18 meses. Por ter celulite. Por me achar feia em cada vídeo. Também me condeno quando me acho bonita.

Já me envergonhei por ser mãe-solo. Tendo a silenciar toda a minha raiva e dor em assumir sozinha a responsabilidade em criar um ser humano.

Ainda me dói uma unha quebradiça, mal feita. A casa desorganizada.

Eu “não devia” ter uma preguiça enorme em fazer mercado. Eu “não devia” ter dificuldade e me atrapalhar toda no gerenciamento de um lar. No gerenciamento da educação de um filho. No gerenciamento da saúde dele. Da educação emocional. Eu “devia” ter uma rotina mais fixa e organizada, porque é isso que “mulheres e mães fazem”.

Eu, mulher, menina na verdade, já fui molestada. A família foi silenciada e recebi um tapinha nas costas com os dizeres : “acostume-se, isso vai acontecer muito ainda na sua vida.”

Eu, mulher, moça, já tive namorado que botava as duas mãos na minha cintura, como quem mede a circunferência e dizia: “esse é o padrão que você precisa manter, se não tchau”. Eu acreditei e silenciei.

Já tive cunhado que dizia, cá entre nós, que as mulheres não tem como ter a mesma inteligência que os homens. Eu, irritada, silenciei.

Já tive namorado que dizia que minha escrita é simplista, superficial. Obviamente a dele, rebuscada, era muito melhor. Eu acreditei e silenciei. Enquanto pagava quase todas as contas do lar.

Já tive namorado que em um mês de namoro me pediu em casamento (gentilmente declinei, achei engraçado). E com oito meses de gestação mudou de ideia e disse que, de repente, não me amava mais e que estava terminando a relação. “Mas fique tranquila que nada muda“. Em quatro paredes, eu gritei, uivei, e me silenciei.

Depois de um almoço pós congresso com vários profissionais, troquei cartões na promessa de parcerias! Estava motivada, meus primeiros anos trabalhando em São Paulo! Quando entrei em contato, o convite era para “tomar um vinho, sexta a tarde, no escritório”. Enojada, me silenciei e sumi.

Eu já tive cunhada massacrada pela família por não se depilar. Eu me sinto mal se tenho 0,3mm de pêlo nas pernas.

Passei a infância e adolescência inteira ouvindo que não existe amizade entre mulheres e que todas elas são na verdade competitivas. Acreditei e isolada, me silenciei.

Já ouvi de psicólogo empreendedor gestor de clínica que toda mulher que se preze precisa ter a unha impecavelmente bem feita. E uma das profissionais que com ele trabalhava (uma das pessoas mais inteligentes e produtivas que já conheci) passava um tempo considerável, à noite, fazendo as próprias unhas porque sabia que não era de bom tom chegar no trabalho sem esmalte. Confusa, silenciei.

Hoje, dia 8 de Março, tomo consciência de tantos e tantos silêncios que me tiram a quietude, um incômodo sem nome, invisível, que eu não conseguia identificar.

Agradeço a Rebecca Solnit que, com seu livro, me ajudou no meu auto-diagnóstico. Agradeço ao Cristiano Almeida por ter, em sua sabedoria e sensibilidade, me dado esse livro de presente. Ao adentrar o processo de cura de um feminino machucado, me abro no processo de cura de masculinos também machucados.

Saúdo a voz de todas as mulheres! Que possamos falar e ter espaços de escuta! Estendo o convite a cada mulher, que reconheça seus silêncios, suas vergonhas, que se permita despir do que não é seu e que fale.

Meu coração é todo ouvido.

 

Nina Taboada

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1 Comentário

  1. Carolina

    Oi Nina, parabens pelo texto e auto confiança em “soltar a voz”. Sem duvida um verdadeiro “tapa na cara” da sociedade.
    Eu, particularmente, nao gosto que me desejem “feliz dia das mulheres” …tipo, como assim? Feliz pq? Dia das mulheres pq?
    Enfim, acredito que todas nós nos reconhecemos nas situacoes ilustradas por vc, e nao digo em uma delas, mas em muitas (triste realudade). Felizmente temos vc para dar voz a muitas que, como eu, nao encontram tal coragem.

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