Maternidade e seus pequenos lutos

E ele saiu correndo, pátio adentro. Encantado com o escorregador, com tantas crianças, carrinhos e com a Tia Rô, que dava atenção exclusiva e cantava pela décima quinta vez a música do seu Lobato (“que tinha um sítio ia ia ô”).

Tchau Teté!

Como um ninja desengonçado de uma comédia norte-americana ruim, saio de fininho e deslizo até a recepção da escolinha. É período de adaptação e devo ficar “de plantão” por cerca de duas horas, caso o meu filho, sei lá, surte e não queira ficar por ali.

Enquanto olhava os peixinhos do aquário e tomava um café fresquinho em copinhos de plástico não sustentáveis, dava-se início ao meu processo de adaptação. Percebi-me ansiosa: onde ele estaria? O que será que está fazendo? Com quem? Está feliz? Nervoso? Céus, cadê ele?

Todo meu corpo pedia para que eu me levantasse e fosse bisbilhotar, aliviar aquela leve (leve?) ansiedade. E da onde vinha toda essa angústia?

Total apego ao MEU bebezinho. Que, cá entre nós, não é meu e nem é mais tão bebezinho.

Apego à sensação de fusão mãe-bebê. Da ilusão de controle e segurança. Do calor aconchegante dos longos abraços na madrugada. De sentir-se como principal referência de amor e brincadeiras. Apego.

Vejo ele correndo, de braços abertos e sorriso largo, disposto a abraçar o mundo. Experimentar novas cores, outros abraços, futuras brigas e, sem dúvida, tombos muitos.

Acolho minha tristeza na despedida de um ciclo que aqui termina, reconhecendo a beleza do que está por vir. Sorrindo, choro.

É lindo vê-lo, autorizado pela minha psiquê, descortinando novos caminhos em direção ao mundo. E é muito fofo ver como ele volta mais rápido ainda para meus braços para contar, atropelando sílabas, como foi seu dia.

– Mamain! O Teté tá biiz! (= feliz)

E na volta para casa, enquanto cantamos juntos a música do boi que, não sei porque, precisa pegar crianças que temem caretas (quem teme careta meldels?), lembro-me de um trecho do poema do livro O Profeta, de Khalil Gibran:

“Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. 
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força 
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe. 
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria: 
Pois assim como ele ama a flecha que voa, 
Ama também o arco que permanece estável.”

 

 

Nina Taboada

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