Você tem que aprender a amar

A convidada de hoje é Márcia Forte, médica que filosofa a beleza da vida dentre bisturis, leituras e vivências. Em sua jornada começou a idealizar o projeto Caminhos do Perdão. O texto (desabafo?) de Márcia nos mostra o quanto, de fato, ensinamos aquilo que mais precisamos aprender.


A lembrança vívida desse momento me tomou este mês e lá se vão quase cinco anos…

Um momento breve, mas que modificou tudo a partir dele. 

Estava na minha cozinha, minha vida virada do avesso e eu já não me reconhecia mais. Via-me cheia de raiva, cheia de dor, desesperada e perdida. Enfim, morta.

Lembro de estar a procura de alguma solução para tudo aquilo e de repente, naquela manhã, ouvir dentro de mim : 

– Você tem que perdoar.

Fácil, pensei. Mas vasculhando minha memória, percebi que até aquele momento eu só tinha desculpado, nunca perdoado. Eu não sabia perdoar.

Conscientizar-me disso foi como me sentir defeituosa. Afinal, julgava-me uma boa pessoa e boas pessoas perdoam. Como eu não tinha isso dentro de mim?? 

– Eu não sei perdoar, como vou aprender? – respondia eu para o ar, olhando tudo em volta, olhando para dentro de mim, me vendo e me ouvindo.

A voz respondeu :

-Você tem que aprender a amar!

Aprender a amar ………. ??? Tenho que aprender a amar para perdoar? Mas e tudo que aconteceu? Eu avisei tanto, nunca me escutou. Eu estava certa, e agora isso? Esquecer tudo, como se nada tivesse acontecido? Amar, sabendo de todo mal que me fizeram ?? 

– Amar …. e perdoar incondicionalmente! A voz respondeu.

Santos momentos, em que todos os anjos, ou o que você acreditar existir, nos carregam nos braços e ungem as nossas feridas. Santos momentos em que nossa mente tem uma fagulha de expansão e se rende, baixando toda a guarda chamada de mágoa.

Nesse momento santo, me ouvindo com uma clareza absurda, percebi o quanto me identificava com aquela história de vida que eu contava e contava e contava. Na verdade não conhecia nenhum outro discurso, senão aquele. E deixar isso para traz parecia que eu deixaria de existir.

Só que não era mais uma questão de estar certa ou errada, louca ou sã . Era muito mais que isso, uma questão de como eu queria existir . 

A palavra existir traz em si um milagre, uma força gerada a partir de algo não tão identificado. Uma rosa brota de uma roseira, uma unidade carregada da multiplicidade do que a gerou, mas ainda assim ela existe por si só.

Nesse momento, na minha cozinha, tive a oportunidade de fazer uma escolha de vida e de que tipo de existência eu queria para mim. 

Aprender a amar…….. muda tudo não é?

Além de não saber perdoar , também não sabia amar!

Será que em algum momento na vida nos ensinam a amar, ou simplesmente repetimos um modelo denominado amor, automaticamente geração a geração, sem uma reflexão mais íntima. Um vício coletivo que permeia tantos e descabidos atos, tantas guerras, abandono, julgamento e aprisionamento. Tudo em nome do amor.

Perdoar é um processo. Um mergulho profundo da nossa mente em direção ao coração, a nossa história. Um encontro com a nossa alma. Eu não sabia perdoar e não fazia a mínima idéia de que naquele dia estaria iniciando meu caminho para aprender a amar, e amar num único sabor: incondicionalmente.

 

 

Nina Taboada

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3 Comentários

  1. Marcia

    Me sinto realmente honrada por ser convidada a escrever neste blog. Admiro e respeito muito , tanto a amiga como a profissional Nina Taboada .
    O Perdão transformou a mim e a minha vida, e continua transformando . É um processo ininterrupto e cada vez mais profundo . Sempre ampliando em direção ao aprendizado do amor , o mais incondicional possivel . Espero que esse processo ecoe e permeie à todos nós .
    Namaste Baby

  2. Nina Taboada

    Esse amor incondicional é um desafio diário, não? Há momentos que é possível se conectar mais facilmente com esse sentimento, há momentos em que se torna um desafio. E o perdão então? Percebo que são camadas e camadas…

  3. Parabéns às duas pelo encontro de mentes e corações!
    Tocou-me profundamente seu texto, Márcia! Um lampejo de existência que surge em meio a tanto sofrimento provando que a nossa alma ou consciência maior ou simplesmente coração é uma manifestação de amor, força única que nos ensina a viver plenamente…
    E no amor nos reencontramos com esse perdão ao mundo que é, antes de tudo, um autoperdão.
    Aqui sempre admirando sua coragem em se abrir e olhar a própria dor nos olhos!
    Beijos!

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